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VISÃO EMPRESARIAL

Transferência Patrimonial

Postado em por Irenaldo Quintans

Tanto o modesto feirante como o acionista de companhia multinacional sabem: de meados de 2014 para cá vivemos os piores anos da história econômica recente do Brasil. Fruto do descuido e inabilidade no manejo das contas públicas, combinados com a interferência indevida da ideologia política na condução das variáveis macroeconômicas e das empresas estatais, sem falar na corrupção deslavada perpetrada pelos últimos governos, a conta das irresponsabilidades chegou. E chegou salgada, ceifando milhões de empregos do mercado de trabalho.

Informalidade crescente e fechamento de empresas, iniciados em 2015, consolidaram-se em 2017, ano em que a atividade econômica esboçou uma reação, a qual, contudo, não se confirmou na prática. Conquanto a inflação e a taxa básica de juros exibam uma admirável trajetória de queda, o setor produtivo parece letárgico, imobilizado ainda, penso eu, pelo elevado grau de incerteza que emana do pleito eleitoral que se avizinha.  

Com efeito, trata-se de um triênio perdido que deixou traumas e cuja recuperação, no meu modesto sentir, levará alguns anos adiante. Condicionada, por óbvio, a fatores cruciais como a segurança jurídica e, repito, o resultado das eleições.

É imperativo, ainda, que sejamos capazes de manter o esforço nacional em dar cabo da corrupção sistêmica que contamina o aparelho estatal, leia-se Operação Lava Jato e seus desdobramentos, aprovando medidas cada vez mais duras para penalizar os vândalos do Erário. Há que se pensar, também, na retomada da reforma previdenciária, sem a qual o déficit público atingirá níveis incontroláveis dentro em breve.

Porém, meu caro leitor, há um setor que singra em alta velocidade esse mar tempestuoso em que se transformou a economia brasileira. Parece imune a todas as vicissitudes por que passam os empresários e trabalhadores. As angústias de quem não tem emprego ou assiste impotente à sua empresa desidratar-se financeiramente não alcançam esse Olimpo econômico.

Refiro-me as corporações que se dedicam à intermediação financeira, isto é, aos bancos. Digo isto porque os lucros dos cinco maiores, em 2017, atingiram a marca de 57,6 bilhões de reais, superior em 18% a 2014, ano em que terminou o ciclo de elevação do PIB.

Se analisarmos os dados da Caixa Econômica Federal, o banco social do governo e principal agente do mercado imobiliário, isoladamente, o resultado positivo de 2017, recém divulgado com pompa e circunstância, foi de 12,5 bilhões de reais, o maior da história da centenária instituição!

E eu, aqui da minha insignificância, fico imaginando como deve ser realmente lucrativo esse negócio dos bancos, pois 2017 foi um ano de inferno astral para a Caixa, que ficou alguns meses sem emprestar, por conta de restrições contábeis, e ainda passou pelo constrangimento público de ter diretores afastados em meio a denúncias de cometimento de ilícitos.

É importante frisar que o lucro é inerente a qualquer atividade empresarial. Não é contra ele que estou me rebelando. Se não houver lucro, não há empresa, não há negócios, não há empregos, não há investimentos. Ademais, a atividade de intermediação financeira é vital para o movimento dos mercados, na oferta de crédito e serviços, dos quais a sociedade não pode prescindir. 

O que me causa espécie é - num ano em que todos nós perdemos, em especial o mercado imobiliário, reduzimos nossas empresas e demitimos nossos funcionários -, o intermediário financeiro que detém 70% desse mercado apresentar o maior lucro da história.

Dito isso, não posso chegar a outra conclusão, senão a de que está em curso a maior transferência patrimonial que se tem notícia do setor produtivo para o setor financeiro. Em outras palavras: o desmonte da produção está enriquecendo a intermediação.