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Insegurança hídrica

É necessário que cobremos as iniciativas públicas relacionadas ao tema, nos diversos níveis de governo, como a implementação de marcos regulatórios eficientes sobre a gestão das águas e a capitalização das empresas concessionárias.

Postado em por Irenaldo Quintans

Meninote, assisti a um filme de ficção científica cujo cenário era um planeta ambientalmente degradado, em que a mercadoria de maior valor, mais cobiçada por todos, objeto de encarniçadas disputas entre grupos rivais, não era a moeda tampouco metais preciosos: era a comezinha e cristalina água de beber, que havia se evaporado “in totum” em face de uma estiagem eterna. Achei absolutamente inverossímil. Afinal, meu pai lavava fusca, calçada e aguava o jambeiro, diariamente.

Porém, constato com desapontamento – e saudade do meu velho e sua mania de limpeza - que, nos dias correntes, a vida mais uma vez imitou a arte, da pior forma possível. A humanidade parece caminhar para o destino inexorável preconizado pela função premonitória do cinema.

As mudanças climáticas, a expansão demográfica e o mau uso desse recurso não renovável levam-me a crer que há, de fato, um risco iminente e sem precedentes na história contemporânea em relação à segurança hídrica do globo terrestre. Sem o menor catastrofismo, se a situação mundial é grave, abrasileira é alarmante. Populações sem histórico de percalços hídricos, como a da região Sudeste, lutam hoje com a brutal incerteza gerada pelas imagens de represas vazias, leitos esturricados, tal qual ilustrado nas páginas escorreitas e desidratadas de Graciliano Ramos. E, dessa lama emerge, como a fera do Lago Ness, a pergunta que nos assombra a todos: o que fazer quando a água acabar?

Ora, a água, como elemento essencial à vida, é o elo que interliga todos os aspectos do desenvolvimento humano. A linha que costura o elã vital. É, sem dúvida alguma, o insumo de maior relevância em qualquer projeto econômico, sem exceção, e precisa receber o destaque que merece, em qualquer agenda de governo, nos seus aspectos social, humano, ecológico e econômico. A sociedade organizada tem o dever cívico de modificar a maneira como gere esse recurso.

O Brasil, embora abençoado com generosas reservas de água potável, algumas das quais situadas entre as maiores do planeta, como é o caso do manancial subterrâneo denominado Aquífero Guarani, enfrenta seriíssimas dificuldades na exploração, manejo, tratamento e condução da água até os consumidores.

Ademais, cumpre repetir que é um recurso natural não renovável. Ninguém fabrica água, como diz um amigo meu,  com cartesiano cabimento. A indústria em geral, e a construção civil em particular, têm na água um esteio. Nada se faz numa obra de construção sem o concurso farto e regular dessa commodity, acho que já podemos tratá-la como tal.

Em vista desse quadro, portanto, é necessário que cobremos as iniciativas públicas relacionadas ao tema, nos diversos níveis de governo, como a implementação de marcos regulatórios eficientes sobre a gestão das águas e a capitalização das empresas concessionárias, a fim de que possam fazer os investimentos necessários, face à acelerada urbanização planetária, na expansão e manutenção das redes públicas, mitigando os notórios vazamentos pelos quais são drenadas porções abundantes desse néctar precioso.

Para mim, não há dúvida de que o poder público, por meio do enfrentamento corajoso e realista da situação, é o grande coordenador desse processo, por meio do qual é assegurada, mais do que tudo, a função sócio-humanitária da água. Todavia, a iniciativa privada, por seu turno, pode e deve colaborar nesse mister, protagonizando ações que, ao fim e ao cabo, se reverterão em benefícios para a coletividade. Técnicas de reaproveitamento da água são hoje os mais destacados, dentre os itens constantes no manual de sustentabilidade da construção civil, elaborado pela Câmara Brasileira da Indústria Construção.

É fundamental, portanto, que o empresariado acostume-se a gerir com planejamento e cautela esse recurso natural de valia inestimável. Por sinal, já há notícias de empreendimentos do programa Minha Casa Minha Vida, espalhados pelo interior do Brasil, impossibilitados de ser entregues para a população por causa da insegurança hídrica. Precisamos estar atentos a isso, antes que a ficção vire realidade. Ou será que, neste instante em que escrevo, já virou?