banner
Clique aqui e assine edificar

Acessibilidade para o idoso

O homem que se encaminha para a idade provecta, de fato, aprecia a vida muito além do que supõe a efêmera juventude.

Postado em por Irenaldo Quintans

Na peça “Acrísio”, uma das obras seminais do teatro universal, o grego Sófocles (400 a.C.) põe a boca do rei de Argos, avô do jovem herói Perseu, a seguinte frase: “Ninguém ama tanto a vida como um homem que está a envelhecer”.

Passando dos cinquenta, já com os dois pés na longa – espero – estrada, mas portador de uma ignorância quase juvenil sobre o envelhecimento, por certo negação da realidade, diria Freud, descubro que estava certíssimo o dramaturgo ateniense.

O homem que se encaminha para a idade provecta, de fato, aprecia a vida muito além do que supõe a efêmera juventude. Chega a ser dolorido, como o é a expressão do velho monarca, o enlevo de um ancião ante o nascer de cada novo dia.

Tenho acompanhado, ultimamente, o cotidiano de alguns idosos da minha família e percebido, surpreso, o quanto os embates da existência ainda os atraem. Especialmente nos dias correntes, com essa sobrevida concedida pelos vertiginosos progressos médicos.

Ela permite às pessoas de idade o encantamento  e, mais do que tudo, a esperança de ainda cumprir algumas missões entre nós, antes da despedida. De serem úteis, afinal! Pois as estatísticas vaticinam: a expectativa de vida do brasileiro passou de 42 para 74 anos, de 1940 para cá. Falamos de um contingente de 20 milhões de pessoas, ou 10% da população, que atingirá 30% até 2050. Tornou-se cena comum grupos da terceira idade saindo de casa para divertir-se, viajar e até mesmo trabalhar. Por sinal, está em discussão ora no Congresso a dita “desaposentadoria”.

Apesar dos avanços, porém, entendo incompatíveis com esse bônus demográfico, para usar uma expressão bem ao gosto dos economistas, em primeiro plano, a falta de respeito da garotada, juízo de valor que discutiremos em outra oportunidade; e, em segundo, e mais importante plano, as condições especiais de moradia e deslocamento às quais essas pessoas fazem jus. Poucos os gestores que, do lado privado, atentam para o excelente nicho de mercado constituído pelos idosos, em todos os ramos da economia.

No que se refere às empresas do setor imobiliário, ao menos já se vislumbra um movimento nesse sentido, espraiando-se pelas principais cidades do Brasil. Rampas de acesso com suaves inclinações, janelas baixas para contemplação do horizonte, elevadores para cadeirantes, quinas de paredes arredondadas, pisos antiderrapantes, barras de segurança em todos cômodos, boxes de banheiros mais espaçosos e fechados com plástico (o vidro é totalmente desaconselhado), larguras maiores das portas e muitos outros itens, sugeridos por gerontólogos, equipam alguns edifícios lançados exclusivamente para maiores de 60. E são sucessos de vendas. Espero que essas adaptações popularizem-se e sejam inseridas nas habitações de interesse social, dirigidas ao referido público-alvo, de baixa renda.

No que compete ao setor público, todavia, a insensibilidade é gritante. Cometi a imprudência outro dia de acudir entusiasmado convite de minha mãezinha, para, braços dados, passearmos a pé até a praia. Tive que desistir, entretanto, nem bem vencido o primeiro quartil do trajeto. Senti na pele a frustração que penso ser de muitos, João Pessoa afora.

Os passos amiudados de oitenta e tantas primaveras, hesitantes como costuma acontecer com quem já vadeou difíceis sendas – entre outras, um AVC -, não suportaram o desrespeito das calçadas entulhadas por sacos de lixo, obstruídas por automóveis, desniveladas entre si, esburacadas pelas concessionárias e escorregadias das águas servidas que se nos apresentaram. Resignada diante do inexorável, cada vez mais aferrada ao meu braço, a anciã sumariou: “Vamos voltar, meu filho; as ruas não são para velhos”.