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Crédito responsável

"Quando o consumismo se transforma na única cunha para o desenvolvimento, ele prejudica o investimento e impacta no controle da inflação"

Postado em por Irenaldo Quintans

Com as exportações claudicando, alguma vitalidade que a economia brasileira ainda apresenta está apoiada, em grande medida, nos estímulos ao consumo interno. É uma estratégia que, sem embargo, tem efeitos positivos, já que os gastos das famílias são uma variável de grande peso na expansão do PIB. Tratamos deste assunto aqui. Agora, vejamos o reverso da moeda.

Há uma estimativa de que, nos últimos dez anos, quase 40 milhões de pessoas ingressaram no mercado, comprando mercadorias que anteriormente não frequentavam suas cestas. Que o digam os setores imobiliário, automobilístico, de cosméticos, as companhias aéreas e alguns nichos alimentícios, como laticínios, cujas curvas de prosperidade atingiram picos reveladores dessa tendência. Os serviços, também, têm obtido acréscimos de desempenho. Para citar o item "cuidados pessoais", cabeleireiros, massagistas e congêneres passaram a atender uma clientela não usual nos salões. É a tal história: com as necessidades básicas satisfeitas, homens e mulheres tratam de cuidar da autoestima.

Minha opinião, a priori, é a de que essa transformação tem sido benéfica, pois cria a sensação de que se estão reduzindo as abissais diferenças entre as camadas sociais no Brasil, embora, convenhamos, haja um longo caminho a ser percorrido. Ter as condições para comprar os bens necessários a uma existência digna é um pensamento tranquilizador numa economia capitalista, em que tudo depende do mercado.

Mas, quando o consumismo se transforma na única cunha para o desenvolvimento, ele prejudica o investimento, impacta no controle da inflação e, o pior de tudo, gera uma elevação geral da inadimplência. O remédio amargo, em geral prescrito pelas autoridades monetárias para neutralizar os efeitos nefastos do consumismo sobre a economia, é o aumento da taxa básica de juros, somada a outras medidas de contenção do crédito por parte do sistema financeiro, o que alimenta o ciclo pernicioso da inadimplência. A equação é óbvia: quanto maior o custo do dinheiro, maior a dificuldade em devolvê-lo ou obtê-lo. Assim, as consequências danosas do consumismo se sobrepõem às favoráveis.

É o que está ocorrendo nos dias correntes. Pesquisas mostram que 65% das famílias brasileiras estão endividadas, sendo que 22% estão inadimplentes, das quais 35% imaginam que não terão condições de saldar as dívidas de jeito nenhum. Na Paraíba, dados do Serviço de Proteção ao Crédito mostram que o número de pessoas com as contas atrasadas subiu 30% nos primeiros meses deste ano. O quadro é análogo ao nacional.

Sabe-se que os paraibanos não são caloteiros. Pelo contrário, são consumidores tradicionalmente ciosos das suas responsabilidades. Com os juros em elevação e os estímulos ao consumo rebrilhando por toda parte, as famílias, em particular as de menor renda, tendem a perder o controle sobre o endividamento. Até mesmo por falta de preparo para o gerenciamento financeiro das próprias contas e o estabelecimento de limites para os gastos. Como se diz no interior, quem nunca comeu melado, acaba comendo em excesso na primeira vez. É um fenômeno previsível. Foram muitos anos de demanda represada pelas muralhas intransponíveis da hiperinflação.

A ganância do sistema bancário também auxilia nesse desequilíbrio. O cartão de crédito, o mais traiçoeiro dos instrumentos de crédito, cujos juros abusivos chegam fácil aos três dígitos anuais, tem sido o vilão dessa novela da vida real, ameaçando com a bancarrota quase 80% dos devedores. O que mais me preocupa, estimado leitor, é que a opção pelo endividamento via bens de consumo, os quais dão prazer imediato, todavia não pavimentam o porvir; é ação que drena os recursos para investimentos de longo prazo. Educação dos filhos e previdência para a aposentadoria se apresentam como os mais negligenciados.

Lembro que as boas regras da gestão financeira doméstica recomendam jamais ser extrapolado o percentual de um terço da renda famíliar com prestações, sob qualquer pretexto. Quanto menor a renda, mais rígida deve ser a postura. A desobediência a este postulado cartesiano, agravada pela elevação do preço do crédito, ao criar um exército de inadimplentes, tem o condão de rapidamente anular todo o ganho que a sociedade brasileira teve, na última década, ao melhorar o poder aquisitivo dessa massa extraordinária de pessoas.